Intercâmbio

Destino à Reims, j’arrive!

Chegando à Reims no dia 20 de agosto por volta de meio-dia do trem TGV Paris-Reims, as impressões sobre a beleza da cidade encheram meus olhos. Desde a espera no trem, as conversas bisbilhotadas do funcionário do trem com a família gigantesca que passava cheia de malas atrapalhando o caminho, a confusão num misto com a beleza das paisagens, tudo aquilo me era cinematográfico demais para ser real. A ficha ainda não havia caído, parecia filme de Fassbinder, a fuga de um lugar para outro. Sete dias depois, a necessidade aqui de transcrever um pouco desta experiência aparece, algumas dicas boas merecem ser mencionadas.

Estação Champagne-Ardenne, localizada à aprox. 8 km do centre-ville de Reims.

Depois de pegar o trem correto no aeroporto CDG-Paris, o desembarque inicial acontece numa área afastada do centro, mas logo na linha férrea ao lado, encontra-se o trem de conexão que leva os passageiros à estação do centro, mas de outro jeito também é possível descer nesta longínqua estação e depois pegar o transporte que mais será utilizado durante uma estadia rémoise, o tramway.

Este « obscuro objeto do desejo » (brincando com o título do clássico de Luis Buñuel), um belíssimo meio de transporte que cruza a cidade em meio à sua arquitetura histórica sem interromper sua beleza, deve-se considerar que não é sutil em suas escolhas cromáticas, porém triunfa esteticamente e funcionalmente.

Bela vista da catedral, toda sua exuberância gótica torna este monumento arquitetônica uma experiência imperdível.

Bela vista da Catedral de Notre Dame, toda sua exuberância gótica torna este monumento arquitetônico uma experiência imperdível.

Reims não é uma cidade grande como as capitais que sonhamos conhecer, mas possui um planejamento urbano completamente funcional, todas as coisas que um estudante de intercâmbio necessita estão a sua disposição sem longas distâncias. Com o transporte da empresa Citura sendo tão eficiente, concluimos que uma das primeiras coisas a se fazer ao chegar à cidade é adquirir o que eles chamam de « Abonnement 30 jours – Moins de 26 ans », um cartão feito na hora que permite ao cidadão percorrer qualquer espaço da cidade em bus e tramway ilimitadamente por um mês. Sabia que além disso o governo francês disponibiliza um auxílio moradia que abate mensalmente parte do aluguel de pessoas com rendas limitadas? Para poder desfrutar do auxílio CAF, é necessário ter uma conta num banco francês que é também uma questão prática e vantajosa de ser agilizada.

Nos arredores do monumento romano em homenagem à Marte, uma bela bandeira francesa exibe o lado patriota dos nativos rémois.

Nos arredores do monumento romano em homenagem à Marte, uma bela bandeira francesa exibe o lado patriota dos nativos rémois.

Com todo o nosso imaginário francês borbulhando, a vontade de sentar para degustar alguma coisa num daqueles cafés fantásticos em ruas de pedestres, conhecer museus para encontrar as obras mais influentes da história da arte, Reims mostra-se uma cidade com experiências estéticas fascinantes. A preocupação dos moradores em produzir eventos de qualidade para receber quem vem de fora me deixou extremamente ansioso para a experiência universitária da URCA (Université de Reims Champagne-Ardenne).

Café finíssimo na Vesle, uma das principais ruas de Reims. Vende deliciosos sanduíches de baguette que custam em geral 3 euros.

Café finíssimo na Vesle, uma das principais ruas de Reims. Vende deliciosos sanduíches de baguette que custam em geral 3€.

O Musel de Belas Artes de Reims é parada obrigatória, inúmeros artistas emblemáticos como o neoclássico Jacques-Louis David e o pós-impressionista Paul Gauguin encantam este monumento do fazer artístico.

O Musel de Belas Artes de Reims é parada obrigatória, inúmeros artistas emblemáticos como o neoclássico Jacques-Louis David e o pós-impressionista Paul Gauguin encantam este monumento do fazer artístico.

Jeanne Moreau – Le Tourbillon

Elle avait des bagues à chaque doigt
Des tas de bracelets autour des poignets
Et puis elle chantait avec une voix
Qui, sitôt, m’enjôla
Elle avait des yeux, des yeux d’opale
Qui me fascinaient, qui me fascinaient
Y avait l’ovale de son visage pâle
De femme fatale qui m’fut fatale
On s’est connus, on s’est reconnus
On s’est perdus de vue, on s’est r’perdus d’vue
On s’est retrouvés, on s’est réchauffés
Puis on s’est séparés
Chacun pour soi est reparti
Dans l’tourbillon de la vie
Je l’ai revue un soir, hàie, hàie, hàie
Ça fait déjà un fameux bail
Au son des banjos je l’ai reconnue
Ce curieux sourire qui m’avait tant plu
Sa voix si fatale, son beau visage pâle
M’émurent plus que jamais
Je me suis soûlé en l’écoutant
L’alcool fait oublier le temps
Je me suis réveillé en sentant
Des baisers sur mon front brûlant
On s’est connus, on s’est reconnus
On s’est perdus de vue, on s’est r’perdus de vue
On s’est retrouvés, on s’est séparés
Puis on s’est réchauffés
Chacun pour soi est reparti
Dans l’tourbillon de la vie
Je l’ai revue un soir ah la la
Elle est retombée dans mes bras
Quand on s’est connus
Quand on s’est reconnus
Pourquoi se perdre de vue,
Se reperdre de vue?
Quand on s’est retrouvés
Quand on s’est réchauffés
Pourquoi se séparer?
Alors tous deux on est partis
Dans le tourbillon de la vie
On a continué à tourner
Tous les deux enlacés
Tous les deux enlacés !

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Entrevista, Intercâmbio

Conversas com Walter Lima

Estudante pernambucano Walter Lima acaba de completar seu período enquanto intercambista do programa do governo Ciência Sem Fronteiras e nos conta um pouco sobre sua experiência em Reims, cidade localizada na região de Champagne-Ardenne.

Walter Lima estuda Ciência da Computação e não parece ter encontrado muitas dificuldades para se habituar à experiência internacional, ele comenta a receptividade e a presença comum em Reims de estudantes de todas as nacionalidades, graças ao programa europeu Erasmus Mundus.

A descoberta e o depoimento do intercambista se deu por meio da internet, há grupos no espaço do facebook para todas as cidades que recebem alunos intercambistas brasileiros em que se compartilha informações imprescindíveis e curiosidades da experiência internacional de cada um.

Conheça agora o depoimento do qual falamos!

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Entrevista, Intercâmbio

Conversas com Hélène Bossuyt

Mme. Hélène Bossuyt é belga, professora de francês e residente de São João del-Rei desde 1963, leciona o idioma na Aliança Francesa, na Rua da Cachaça. Frequentemente, ela nos conta de suas primeiras experiências com a cidade mineira, as dificuldades de se habituar e de constituir família num lugar de costumes e questões culturais tão diferentes. Por outro lado, relata também como gostou da nova experiência climática e valorizou a personalidade receptiva comum aos brasileiros. Conversas com a professora nos faz refletir sobre a experiência do intercâmbio, todo cuidado se faz necessário ao lidar com pessoas estrangeiras. Hélène Bossuyt conta um pouco de seus lugares preferidos, comenta suas impressões da divergência entre os comportamentos brasileiros e europeus, lembrando sempre com bom humor das suas vivências francófonas.

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Arte, Intercâmbio, Literatura

Se a vida fosse um folhetim

Sabe aquele velho sonho de vida eterno, desejo cultivado há tanto tempo e às vezes desde a infância, que repentinamente parece tornar-se realidade? O estudo de idiomas estrangeiros tem sido motivo de investimento há várias gerações, porém mais do que nunca agora se discute isso por conta de programas de intercâmbio como o Ciência sem Fronteiras.

Vale a pena colocar a reflexão de que este contemplado investimento não se faz enquanto benção divina, é a prova, porém, de que o Estado ao qual contribuímos por meio de impostos está considerando um retorno. O sonho realizado parece uma novidade em vida como se fosse o seu evento do ano, imediatista e exagerado como a reviravolta de um folhetim.

Nem parece que o drama feito para alcançar a oportunidade angariou tantos esforços e, depois do balde na cara de felicidade, surgem os pós-dramas, a burocracia do visto, a feitura de passaporte, o peso permitido da mala, a saudade de família/amigos. Se a vida fosse um folhetim como você imaginaria o seu drama?

O folhetim (feuilleton) é um termo de popularidade francesa para caracterizar histórias, seriadas em jornais, esdrúxulas anedotas de paixão, dinheiro, morte, dentre outros temas recorrentes e provocativos deste imaginário. A relação da cultura francesa com esta história toda é profunda. Manifestações de teatro francês deu visibilidade popular a uma estética melodramática. Há inúmeros exemplos na música e na literatura que expressam esta melancolia clássica, entre os cigarros e a boemia, do estereótipo francófono.

Com o termo francófono, referimos a países falantes da língua francesa, lembra-se de francofonia.

Tem ainda movimentos importantes e significativos para as artes visuais a exemplo do impressionismo que valorizava o retrato de cenas do quotidiano burguês, o grande público do folhetim, e suas questões passionais, filosóficas ou banais. O estabelecimento de Paris como a cidade para se aprender a amar e a produzir arte, dentre outras coisas, configura uma situação muito folhetinesca que nos deixa herança cultural, refletida ainda nas telenovelas, costumes e nas vestimentas.

Dando uma revirada no baú para encontrar referências preciosas que comprovassem este pensamento, chego ao escritor carioca Gonzaga Duque, reconhecido no meio das artes por escritos como “Mocidade Morta” (1900) e, acima de tudo, por ser o primeiro a publicar um livro sobre a história da arte brasileira. Gonzaga Duque ficou conhecido como um daqueles críticos de arte que adoravam tagarelar e, em pesquisas atuais, teve a credibilidade de sua obra posta em provação com seus recortes e seu ponto de vista do que era pertinente à produção artística de sua época.

Definitivamente, a coisa que mais chamou o meu olhar ao olhar de Gonzaga Duque foi o seu enaltecer de uma obra cujo principal apelo é melodramático e romântico. A pintura brasileira esteve na época do império de D. Pedro II atrelada às perspectivas históricas, grandes pintores retrataram inúmeras batalhas. Contudo, o carioca audacioso descarta deliberadamente a pertinência de se retratar aquelas batalhas, a partir do momento que considera “Arrufos” (1887) a principal realização em termos de pintura brasileira para a época.

Obra de Belmiro de Almeida que não parece conversar efetivamente a atenção da época voltada para questões políticas, porém o ato em si de produzir o recorte, um homem de feições dopadas e ar de indiferença ao lado de uma mulher em clássica lamúria, pétalas de flor espalhadas ao chão, revela as intenções talvez de querer discutir o que há dentro de quatro paredes e o que se desvelaria por trás de formalidades.

Deixando esta imagem perdurar pelos imaginários folhetinescos, destaco este quadro como inspiração também para se buscar os “interiores”, pois a discussão do autor ainda é pertinente. Belmiro de Almeida também foi um dos autores inspirados pela academia francesa, é um dos exemplos do incontável número de artistas que já fizeram um intercâmbio francês.

A informação pode parece longínqua, mas saber que no tempo do império já havia financiamento de bolsas para estudar no exterior provoca pensamentos que ainda tem muito que frutificar e desencadear mais reviravoltas na vida de tantos estudantes que priorizam uma experiência internacional.

Lembrando as palavras de um amigo sobre o folhetim de que a bíblia pode ter sido o primeiro melodrama do mundo, a possibilidade de seu fim é tão instável quanto às mil e uma noites, as nossas produções seriadas individuais ainda tem muitos capítulos pela frente.

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